A caminho de Modena, descobre-se um visitante português. Engenheiro do município, ar informal e munido de toda a parafernália essencial à viagem: mapa de Modena, comprovativo da marcação de hotel e com domínio perfeito das respectivas distâncias para todas as cidades a visitar nas redondezas. Perante a noite indómita, deixei-me acompanhar pelas suas certezas. Eu que acabara de chegar com quatro vezes mais bagagem, mas sem qualquer guia organizado. O mistério corporizado por Modena desvanecia-se em cada esquina. A cidade era afinal finita.
O engenheiro que vinha em "visita de médico" para um congresso que se realizava por esses dias encontrou o seu posto, eu prossegui a jornada por entre as ruas abandonadas. Os trinta quilos às costas obrigaram-me a repousar no primeiro albergue que me aceitou. O recepcionsista, homem eficaz para a tarefa mas de poucas palavras, passou-me um mapa da cidade...Modena, finalmente, nas minhas mãos.
Quando tudo parecia condizer com a calmaria que dominava Modena, preparada para me entregar a lençóis lavados, nada do telemóvel. A minha única ligação com o mundo na altura abandonada à sua sorte no aerobus. Lancei-me à estrada. Aos primeiros metros de penumbra sucedeu-se a efervescência dos 'tiffosi' italianos, que rodeavam o estádio do Modena (modesta equipa da série B), dos polícias que vetavam a rua a qualquer tipo de tráfego e controlavam os corações mais sobreaquecidos pelo álcool.
Eu, só, rodeava a inóspita Autostazione de Modena. Cheirava a lixo, a vidas votadas ao abandono. Iluminada pelo foco de luz mais persistente deixei-me ficar assim. À espera. Passeavam-se algumas bicicletas, a maioria delas conduzidas por emigrantes magrebinos. Passavam, olhavam, mas o rigor da noite era mais forte. Partilhei ainda um cigarro com um qualquer italiano que se juntou a mim à espera do seu filho. Disse-me que chegaria de autocarro, vindo de não sei onde, fosse qual fosse a sua história.
Tocam as 23h30 e o aerobus chega. E com ele o telemóvel que me aguardava. Com a companhia virtual das centenas de contactos que contam parágrafos inteiros da minha vida, firmei-me perante o estádio e a meia dúzia de vozes mais acaloradas que agitavam a rua. Entrei no único bar aberto, bebi a primeira cerveja em Modena. A equipa havia perdido na sua própria casa, "já vão oito jogos sem vencer", confessa o empregado adolecente. No caminho de regresso tudo me parecia mais familiar.
Nada que cerveja e futebol não resolvam.
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